Menopausa: Pedra Bruta ou Obra-Prima?
- Dra Letícia Gonçalves
- 16 de mar.
- 6 min de leitura

Cá estou novamente, no mês da mulher, utilizando esse espaço para compartilhar ideias que aprendo estudando psicologia positiva e convidar nossas leitoras a descobrirem como a ciência tem a capacidade de buscar uma vida apreciativa e nos transformar para construir saúde de forma concreta e autoral.
Tem uma frase do Michelangelo que me persegue desde que comecei a atender mulheres na menopausa e perimenopausa :
"Dentro de cada pedra já existe um anjo. Basta ir lapidando para que ele apareça."
E eu penso nisso toda vez que uma paciente senta na minha frente, exausta, e diz: "Doutora, acho que não tem mais jeito. Meu corpo não funciona mais."
Será mesmo? Ou será que a gente só precisa aprender a lapidar de um jeito diferente?
Quando o corpo muda (e a gente precisa mudar o olhar também)
Vou ser direta: a menopausa assusta. E não é à toa.
De repente, aquele corpo que você conhecia há décadas começa a fazer coisas estranhas. Você sua no meio da reunião sem motivo. Acorda às 3h da manhã e não dorme mais. Ganha peso sem ter mudado nada. Esquece palavras no meio da frase. Sente que perdeu completamente o controle.
E aí vem aquela pergunta sussurrada, quase envergonhada: "Será que estou ficando louca?"
Não. Você não está.
Você está atravessando uma transição hormonal profunda : que começa na perimenopausa, se marca pela menopausa (12 meses sem menstruar) e mexe com o corpo inteiro. Fogachos, insônia, mudanças de humor, queda de libido, gordura abdominal, pele seca. E aquela exaustão profunda, como se o tanque de energia tivesse simplesmente secado.
Mas aqui está a primeira coisa que eu preciso que você entenda: os seus sintomas são reais. Você não está exagerando.
Porque validar é o primeiro passo. Validar cria espaço. E é nesse espaço que a transformação pode começar.
O que realmente acontece
A queda do estrogênio é o protagonista dessa história. Só que ele não é apenas "o hormônio da menstruação" : ele tem receptores pelo corpo inteiro.
No cérebro (sono, memória, humor), no coração (risco cardiovascular aumenta), nos ossos (perda de densidade acelera), nos músculos (fica mais difícil ganhar massa magra), no termostato cerebral (por isso os fogachos).
E tem outro movimento silencioso: perda de massa muscular + ganho de gordura visceral + resistência à insulina. O perfil lipídico muda. A inflamação aumenta.
É muita coisa ao mesmo tempo, eu sei.
E é fácil olhar para tudo isso e pensar: "Pronto. Não tem mais o que fazer."
Mas é justamente aí que eu quero te parar. Porque essa crença : a crença de que "não tem mais jeito" , é exatamente o que impede a mudança de acontecer.

O efeito Pigmalião: quando acreditar transforma realidade
Deixa eu te contar sobre um estudo que mudou minha forma de exercer medicina.
Em 1968, dois pesquisadores fizeram um experimento com crianças em uma escola. Informaram aos professores que 20% das crianças tinham "alto potencial de desenvolvimento". Detalhe: essas crianças foram escolhidas aleatoriamente.
Não tinham nada de especial. Mas os professores acreditaram que tinham.
E sabe o que aconteceu no final do ano?
Todas as crianças que foram percebidas como "de alto potencial" melhoraram significativamente de verdade.
Isso ficou conhecido como efeito Pigmalião: quando acreditamos no potencial de alguém, criamos condições para que esse potencial se manifeste.
E eu carrego isso em cada consulta.
Quando olho para a paciente exausta, achando que "não tem mais jeito", eu escolho enxergar o potencial que ela ainda não vê. O potencial de ficar mais forte.
De dormir melhor. De ter energia de novo. De florescer.
E sabe o que acontece? Quando eu acredito , de verdade , ela começa a acreditar também.
Não é mágica. É psicologia positiva aplicada na prática clínica.
Porque a psicologia positiva nos ensina que as pessoas querem, além de aliviar sintomas, se desenvolver e crescer. A paciente não quer só parar de ter fogacho : ela quer vitalidade, autonomia, vida plena.
Então quando ela diz "não consigo", eu reformulo: "Você ainda não conseguiu. Mas vamos construir isso juntas."
Quando ela diz "meu corpo não funciona mais", eu devolvo: "Seu corpo está funcionando de forma diferente. Vamos trabalhar com ele, não contra ele."
Esse olhar , de esperança, de crença genuína : desperta o potencial real.
Nutrição: dar ao corpo o que ele precisa
Aqui não tem espaço para dieta da moda ou restrição cruel.
O que tem é nutrição : dar ao corpo o que ele precisa para funcionar bem.
Proteína é a base invisível da força. Nessa fase, o músculo não responde tão fácil : então precisa de mais substrato. Ovos, frango, peixe, iogurte grego, leguminosas.
Em todas as refeições.
Fibras para intestino, saciedade e controle glicêmico. Vegetais, frutas, grãos integrais.
Cálcio para os ossos : laticínios, vegetais verde-escuros, sardinha.
Padrão anti-inflamatório: mais comida de verdade, mais gorduras boas (azeite, abacate, oleaginosas, peixes gordos), mais cores no prato.
E sobre álcool: ele piora fogacho, fragmenta sono, aumenta risco cardiovascular.
Não precisa cortar zero, mas precisa ter consciência do custo-benefício.
Gordura abdominal? Déficit calórico moderado + treino de força + sono de qualidade + gestão de estresse. Nada de desespero ou radicalismo.
Suplementação só com critério clínico: vitamina D se houver deficiência, magnésio para sono quando indicado, ômega-3 para perfil lipídico, creatina para massa muscular.
Mas atenção: nem todo sintoma é "falta de suplemento".
Às vezes é falta de treino, sono e gestão de estresse.
Treino de força: onde a transformação acontece
Se tem UMA coisa com evidência robusta na menopausa, é treino de força. Pegar peso, desafiar o músculo, progredir carga.
Benefícios: freia perda muscular, melhora densidade óssea, melhora sensibilidade à insulina, melhora composição corporal. E traz funcionalidade : força é independência, é envelhecer bem.
Mínimo: 2-3x/semana. Pode começar do zero : com orientação adequada.
Cardio também é importante (coração, saúde mental), mas equilíbrio é tudo.
Treino de força + cardio moderado.

Sono é a peça que conecta tudo. Sono ruim piora tudo.
Capricha na higiene: regularidade, quarto escuro e fresco, menos telas à noite, cuidado com cafeína e álcool.
Estresse crônico eleva cortisol. Cortisol alto = resistência à insulina + gordura abdominal + sono ruim + compulsão alimentar.
Gestão de estresse não é luxo : é tratamento. Terapia, meditação, yoga, natureza, limites no trabalho.
Lapidar: a arte de revelar o que já existe
Volto ao Michelangelo.
Dentro de cada pedra já existe um anjo.
Dentro de cada paciente que chega exausta já existe o potencial de florescer. De ter energia de novo. De dormir bem. De se sentir forte. De atravessar essa fase com dignidade e saúde.
O meu papel , o nosso papel como profissionais, é lapidar. É ir tirando, com cuidado, com paciência, com técnica, tudo o que está impedindo que esse anjo apareça.
E sabe o que é mais bonito? Quando a paciente começa a lapidar junto comigo.
Quando ela entende o que está acontecendo. Quando ela acredita no próprio potencial.
Quando ela assume a autoria da própria saúde.

Porque a psicologia positiva nos ensina que as pessoas querem se desenvolver e crescer. Elas querem florescimento, não só ausência de sofrimento.
E quando a gente organiza o cuidado assim : validando sintomas MAS também enxergando forças, construindo o plano COM a paciente, celebrando cada pequena vitória :
a gente cria condições reais para transformação.
É o efeito Pigmalião em ação. É acreditar no benefício que ainda não foi visto : e criar espaço para que ele se manifeste.
A paciente pode mais. E você também.
Menopausa é uma fase : e dá para atravessar com estratégia, apoio e dignidade.
Você não precisa sofrer em silêncio. Você não precisa aceitar que "é assim mesmo".
Você pode ter energia, força, saúde, vitalidade, autonomia.
Mas isso exige informação de qualidade, ação consistente, paciência com o processo e crença no próprio potencial.
E para nós, profissionais, fica o convite: acredite no potencial da sua paciente.
Veja nela não só os sintomas, mas a capacidade de transformação. Comunique essa expectativa positiva. Construa o plano junto com ela. Celebre cada vitória.
Porque quando a gente acredita , de verdade, no potencial do outro, criamos condições para que esse potencial se manifeste.
É o efeito Pigmalião. É o efeito Michelangelo. É psicologia positiva.
É ciência aplicada com humanidade.
A paciente pode mais. E você, profissional, também pode.
Vamos lapidar, juntas, os anjos que já existem dentro de cada pedra

Letícia Gonçalves é esposa, mãe, escritora, fotógrafa, pintora e poetisa tem usado a psicologia positiva para imprimir vitalidade por onde passa. Mentora na MEVBrasil, membra da diretoria científica do Movimento Médicos Atletas, além de Co-autora Capítulo Alimentação do Livro Cardiologia do Estilo de Vida e Host do Podcast Papo de Nutróloga.
Médica de Família e Coaching de Saúde e Estilo de Vida, com formação em Nutrologia e Psicologia Positiva.
Membra da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO)


Dra Leticia, é lindo de ver como você transforma fisiologia em poesia e toca nossos corações. Amei seu texto, amiga.